A começar pelo título do livro, que acho um grande chamativo. É impossível não embarcar em possíveis caminhos antes mesmo de você ler a primeira página. Aqui, temos uma obra que vai funcionar sob diferentes vertentes. Eu acredito — e com a leitura isso me pareceu claro — que se trata de um tipo de livro que, apesar de apresentar uma constância em seu desenvolvimento, também pode ser experimentado de forma aleatória. O que isso significa? Que talvez ele funcione muito bem mesmo sendo lido fora de uma ordem planejada. Como o livro tem sua estrutura, vamos nos ater a ela.
Solemar Oliveira traz algumas questões interpretativas bem interessantes. Mesmo quando há a sugestão de autores que você poderia ter lido antes de ingressar no seu livro, eu não acho que isso seja um problema. Tratei como uma forma de me desafiar e, depois da leitura, sair com algumas sugestões de obras — e até mesmo de autores — para complementar minha estante. Acho que, nas primeiras páginas, o autor acerta muito ao tentar desafiar o leitor.
Há algumas interpretações possíveis que colocam Breve segunda vida de uma ideia para dialogar sobre ressurgimentos. Aqui, ele explora questões filosóficas que tentam esmiuçar essa possibilidade de uma ideia abandonada que, por algum motivo, pode ser retomada. Ele propõe uma reinterpretação da criatividade, abordando como um ponto de vista se torna obsoleto por vários motivos. E, por fim, fala da fragilidade que estaria mais próxima das memórias que construímos a partir de uma ideia. Apenas no título, esse livro já é desafiador, uma vez que abre várias possibilidades — talvez até uma visão poética da ideia — sendo explorada em diversas camadas diferentes.
Além da perspectiva em que desenvolve e aprofunda muito bem a prerrogativa do conceito de “ideia”, por meio de algumas inspirações, ele traz ao longo de alguns contos (42 no total) uma perspectiva que segue a linha do macabro. Mas ele não para por aí: caminha pelo mistério e pelo terror de forma muito natural, dadas as suas referências citadas na apresentação do livro — que é excelente, por sinal. Ele percorre muitos gêneros importantes e trabalha muito bem suas influências.
Aqui, não pretendo explicitar um conto em específico, mas é relativamente interessante como Breve segunda vida de uma ideia é muito bem construído sob diversas perspectivas. Sendo meu primeiro contato com uma obra escrita por Solemar Oliveira, acredito que foi uma porta de entrada para entender seus pontos positivos e negativos como autor. Neste livro, ele apresenta um mix de narrativas que culminam em uma excelente experiência de leitura. É o tipo de contato com o leitor que, de alguma forma, apresenta muito bem quem escreve e, principalmente, entrega uma perspectiva quase revolucionária para quem se propõe a lê-lo.
★★★★
Breve segunda vida de uma ideia
Autor: Solemar Oliveira
Editora: Novo Século
Páginas: 240
Lançamento: 2010
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