Não é de hoje que a autora Sarah J. Maas vem chamando a atenção dos leitores cada vez que publica um novo livro. No Brasil, existe uma legião de fãs fervorosos quando se fala nas mais diversas sagas que já ganharam suas versões em português, entre elas Trono de Vidro, Corte de Espinhos e Rosas e, mais recentemente, Cidade da Lua Crescente. A autora, que começou a escrever ainda na juventude, pode ser considerada uma das mais importantes do gênero fantasia da atualidade. Trono de Vidro mostra uma vertente mais intimista de Sarah J. Maas ao criar uma fantasia fora dos padrões atuais.
O primeiro livro da série Trono de Vidro, que dá nome à saga, acompanha a jornada de Celaena Sardothien. Sarah J. Maas apresenta aqui uma das melhores personagens femininas da literatura, ainda que sua primeira aparição seja cheia de altos e baixos. Cumpre, no entanto, o papel principal de apresentar ao público-alvo as camadas necessárias que marcaram uma geração de adolescentes, seja pela dinâmica da escrita ou pelo desenvolvimento e apresentação dos personagens neste primeiro vislumbre.
Trono de Vidro funciona muito bem para um público específico, principalmente para leitores que buscam livros de fantasia que fogem um pouco da fórmula tradicional. A saga tem um fator determinante e assombroso: a quantidade de livros que o leitor terá de encarar caso o primeiro cumpra sua missão de porta de entrada. Vale dizer que o livro inicial cumpre essa função sem precisar ser apontado como grande inovação do gênero, já que segue caminhos óbvios que poderiam render apenas um resultado.
Celaena Sardothien, a protagonista, é uma personagem com muitas camadas, desenvolvida em meio a um verdadeiro caos de apresentações de personagens secundários e do novo mundo que Sarah J. Maas precisa desmistificar ao longo de 392 páginas. Celaena reúne traços de fácil identificação: é uma assassina e, aos 18 anos, é aprisionada nas minas de sal em Endovier, onde deveria trabalhar até sua morte, já que a liberdade não era uma opção.

A autora dedica uma quantidade interessante de páginas para estabelecer Celaena como protagonista e entregar ao leitor ações que reforçam sua principal característica: uma assassina extremamente mortal e eficiente quando contratada. A sorte da personagem muda quando é convidada para uma competição que decidirá a campeã do temido rei de Adarlan. O convite é feito pelo príncipe Dorian Havilliard, e a assassina precisa disputar sua liberdade vencendo um torneio com 23 campeões escolhidos, culminando na seleção de apenas um vencedor.
Neste cenário, Trono de Vidro é uma mescla eficiente e evita ser previsível em alguns aspectos, ao flertar com outros gêneros sem perder sua essência. Isso não exime Sarah J. Maas de cometer erros que se tornam fatais para leitores mais maduros de fantasia. A partir do aceite de Celaena em participar do torneio, o desenvolvimento da personagem entra em contradições, e a falta de personagens secundários interessantes pesa, já que a protagonista é transformada em uma mocinha de contos de fadas — um dos pontos mais negativos do livro.
O suspense em Trono de Vidro segue uma linha tênue para não ser considerado clichê, mas algumas informações importantes entregues nas primeiras páginas são basicamente esquecidas. Além disso, o livro é carente de personagens secundários bem trabalhados, faltando descrições e detalhes sobre o universo da trama. A autora emprega foco excessivo no desenvolvimento de um romance para agradar um público específico e, quando a trama começa a ficar interessante, as contradições que destroem a personalidade de Celaena recebem ainda mais destaque.
Os personagens secundários são, sem dúvida, um problema preocupante. Chaol Westfall e Nehemia Ytger entregam bons momentos de interação com a protagonista, mas isso não é bem explorado ao longo do livro. Mesmo a temida presença do rei de Adarlan não é suficiente para sustentar um elenco capaz de entreter sem depender 100% da protagonista. Diante desses pontos negativos, a leitura de Trono de Vidro é dispensável? Pelo contrário. Apesar das falhas, a escrita de Sarah J. Maas é fluida e não torna a leitura cansativa, mesmo com a falta de conexão com os personagens, incluindo a própria protagonista.
Como porta de entrada para o universo criado por Sarah J. Maas, a expectativa do leitor deve ser moderada. A autora não reinventa as regras do gênero, pelo contrário, o livro é inconsistente em diversos aspectos. Ainda assim, não merece ser descartado: é importante atestar pessoalmente o quanto a trama e o possível desenvolvimento de Celaena Sardothien podem revelar nos próximos volumes. Fato é que Trono de Vidro é o livro de estreia da autora e, mesmo refém de sua jornada narrativa, merece ser lido.
★★★
Trono de Vidro
Autora: Sarah J. Maas
Editora: Record
Tradução: Bruno Galiza, Lia Raposo, Rodrigo Santos e Mariana Kohnert
Páginas: 392
Lançamento: 2013
Publicação Original: Throne of Glass (2012), Bloomsbury Publishing
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