Keum Suk Gendry-Kim se tornou um nome popular no Brasil após a publicação de seu quadrinho mais premiado, Grama. Publicado pela Editora Pipoca e Nanquim, a publicação foi responsável por inserir a autora no mercado nacional. Apesar de não ser uma desconhecida do grande público, as premiações e críticas que Grama recebeu ao longo de 2020 fizeram com que a curiosidade pela obra da autora se tornasse uma realidade. Em 2021, uma segunda obra da autora foi publicada no Brasil, desta vez A Espera. Antes de qualquer observação sobre a obra em questão, é preciso falar sobre a linha narrativa e visual que os leitores podem esperar na obra de Keum Suk Gendry-Kim. Conhecidos como manhwas, Grama e A Espera possuem elementos comuns entre si. Ambos focam na jornada de personagens em meio às adversidades. Neste caso, A Espera é importante resgate da memória de momentos tão delicados na história da Coreia do Norte e da Coreia do Sul.
A trama do quadrinho tem sua ambientação, em grande parte, na Ilha de Ganghwa, no ano de 2020. A autora assume para si uma responsabilidade com fatos históricos e sociais que assolaram a sociedade coreana ao longo dos anos. A Espera é basicamente uma compilação histórica de acontecimentos que marcaram por muito tempo — e ainda marcam — a rivalidade entre as Coreias. O contraste entre as duas realidades e suas consequências na vida de uma pessoa são os elementos mais complexos do quadrinho e que Keum Suk Gendry-Kim consegue desenvolver como ninguém. É muito importante salientar que, apesar da ambientação nos fatos históricos, o desenvolvimento do quadrinho foca nas pessoas que buscam sobreviver em meio aos conflitos, e não no conflito em si. Isso suaviza, em parte, a leitura da obra, principalmente quando se lê a partir de um ponto de vista baseado na história ocidental.

A Espera, ainda que conte com contextos históricos, desenvolve sua trama sob o olhar de mãe e filha. A filha é autora de romances e, diferentemente de outras mulheres da sociedade coreana, ainda não se casou, apesar da idade. Enquanto isso, sua mãe, uma senhora idosa, mora a algumas quadras da filha. Estando nas proximidades, a mãe sempre tenta estar perto da filha, ainda que alguns desencontros sejam relevantes para o que vem a seguir. Assimilando dois importantes momentos da história, entre eles a ocupação japonesa, que começou em 1910 e terminou em 1945. Contextualizando a parte histórica da trama, Keum Suk Gendry-Kim mostra, em detalhes, as consequências da guerra, principalmente para Gwijá Song.

Gwijá Song é o elo de ligação do desenvolvimento da trama de A Espera. Sutilmente, toda sua jornada é envolta em grande sofrimento, entre eles a perda de sua família, nos mais variados aspectos que uma guerra pode corroborar. As consequências na vida da personagem, desde a infância, com a preferência de seu pai pelos irmãos, e principalmente os acontecimentos que se seguem, dão sentido ao título escolhido pela autora. Não por acaso, com o avançar das páginas, Keum Suk Gendry-Kim é muito sábia, tratando de forma delicada pontos tão importantes e que fazem parte da vida das pessoas, como os mais diversos traumas a serem vencidos ao longo de uma geração.
Um dos pontos marcantes, e que certamente fará com que o leitor crie empatia com A Espera, é justamente a sensibilidade da autora em retratar momentos delicados da história da Coreia. A arte e o roteiro do quadrinho são corresponsáveis pelas sensações que o quadrinho vai construindo com o leitor ao longo das páginas. Lançar uma parte tão delicada de sua história e abri-la ao mundo é uma forma de mostrar para pessoas de outras realidades que acontecimentos como estes devem ficar no passado e que devemos olhar de forma igualitária para o próximo. É impossível não se sensibilizar com a história de Gwijá Song e como sua jornada é brilhantemente desenvolvida pela autora. Esperar um desfecho para o quadrinho acaba sendo irrelevante quando se tem em mãos uma história tão poderosa, que pode gerar tantas reflexões e aprendizados para a vida.
★★★★★
A Espera
Roteiro: Keum Suk Gendry-Kim
Arte: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Yun Jung Im
Páginas: 252
Lançamento: 2021
Publicação Original: 기다림 (2020)
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