Jujutsu Kaisen, obra de Gege Akutami, ganhou grande notoriedade nos últimos meses, consolidando-se como um dos mangás e animes mais exitosos da atualidade. Comparado ao sucesso de Naruto, o mangá principal acompanha a jornada de Yuuji Itadori. Apresentando ao público um típico shōnen, Jujutsu Kaisen passou por uma reformulação antes de ser aprovado pela Weekly Shōnen Jump. A jornada de Itadori, na verdade, não seria a primeira opção de Akutami, algo revelado com o lançamento de Jujutsu Kaisen 0. A prequel, como ficou conhecida, traz Yuuta Okkotsu como protagonista, além de outros personagens que se tornaram marcantes quando o mangá foi relançado, reciclando sua trama com novas figuras. Apesar de não possuir ligação oficial com a história principal, foi publicada como volume zero com múltiplos objetivos: estabelecer o universo junto ao público e, ao mesmo tempo, servir como uma ponta solta dentro do cânone da obra.
Yuuta Okkotsu é o protagonista e, diferentemente do que muitos acreditam, essa pode ser considerada a trama original, posteriormente reaproveitada. Isso não diminui o que viria a ser Jujutsu Kaisen; trata-se apenas de um olhar distinto sobre um universo tão vasto quanto o recriado por Akutami. São tramas semelhantes, mas que cumprem funções diferentes — talvez essa seja a melhor definição. Como ponto de partida, Yuuta é um jovem que carrega uma maldição, chamando a atenção de Satoru Gojō. Antes mesmo de narrar a origem do protagonista, parte da trama se passa na Escola Técnica Superior de Jujutsu de Tóquio, já estabelecendo sua relevância para o desenvolvimento do mangá.

A jornada de Yuuta se desenrola quando ele passa a ser assombrado por uma maldição de nível especial: Rika Orimoto. Rika era uma garota apaixonada por Yuuta que morreu tragicamente, e desde então acredita-se que ele tenha sido amaldiçoado por ela. Transformada em maldição, Rika se liga ao protagonista com o objetivo de protegê-lo. Essa relação chama não apenas a atenção de Satoru, mas também de Suguru Geto, ex-aluno da Escola de Jujutsu de Tóquio. A inclusão de personagens secundários já conhecidos — Panda, Maki Zenin e Toge Inumaki — aprofunda suas personalidades de forma mais rica do que no mangá regular. A essência deles não mudou, mas a interação entre si funciona de maneira mais orgânica.
Um dos pontos que mais chamam atenção na obra de Akutami é sua habilidade em explorar os principais atributos da demografia shōnen. Essa capacidade de beber da fonte já consolidada deu fluidez ao mangá e garantiu que a trama da prequel não fosse ignorada. Embora apresente falhas, como história de arco fechado, funciona muito bem. Os diálogos objetivos e a arte de Jujutsu Kaisen 0 contribuem para uma experiência envolvente, levando o leitor, ao longo de 200 páginas, a acompanhar a jornada daquele que seria o pontapé inicial do mundo de Jujutsu.
O lançamento de Jujutsu Kaisen 0, narrando a trajetória de Yuuta Okkotsu e sua ligação com uma maldição, abre novas possibilidades para a longevidade da obra de Akutami. Colocar o protagonista como alguém frágil e pouco familiarizado com esse universo torna sua jornada mais interessante. A edição segue a linha clássica das histórias de heróis, em que a trajetória é tão importante quanto sua origem, motivações e eventual consolidação como “herói”. Yuuta, no entanto, está longe de ser um herói tradicional, já que as consequências de sua ligação com as maldições culminam em um desfecho de intensidade quase shakespeariana.
★★★★
Jujutsu Kaisen 0
Roteiro: Gege Akutami
Arte: Gege Akutami
Editora: Panini
Páginas: 200
Lançamento: 2021
Publicação Original: 呪術廻戦 0: 東京都立呪術高等専門学校 (2018), Shueisha
Onde encontrar: Amazon | Editora