Grama é um manhwa, ou “quadrinho coreano”, com roteiro e arte de Keum Suk Gendry-Kim. Publicado no Brasil em 2020 pela Editora Pipoca & Nanquim, foi o primeiro de vários títulos da autora lançados por aqui. Outros trabalhos publicados são: A Espera, Jun, Cães e Meu Amigo King Jong-Un.
Keum Suk Gendry-Kim nasceu em 1971, na Coreia do Sul. A manhwaga ganhou reconhecimento mundial por suas obras que abordam temas delicados e realistas da sociedade coreana. Vencedora do Harvey Award em 2020 por Grama, a autora acumula outras premiações importantes. Cada um de seus manhwas trata de aspectos sensíveis da formação social e histórica da Coreia, o que evidencia seu compromisso com temas profundos e relevantes para seu país.
Um traço comum nas obras de Keum Suk Gendry-Kim é o tratamento dedicado a assuntos delicados da história coreana. Em Grama, o foco principal são as “mulheres de conforto”. Esse tema é ainda mais sensível do que muitos imaginam: as mulheres de conforto eram jovens coreanas que foram capturadas pelo exército japonês para servir como escravas sexuais dos soldados do Império.

Existem autores que usam seu talento para contar histórias que buscam mudar a relação do leitor com determinados temas. Atualmente, os quadrinhos ultrapassaram uma barreira importante, deixando de lado apenas tramas de heróis fictícios para contar histórias reais de pessoas que, a partir de traumas, precisam ter suas jornadas registradas e conhecidas.
Na minha opinião, Grama é o trabalho mais tocante de Keum Suk Gendry-Kim. A protagonista é Ok-sun Lee, uma mulher que, como muitas de sua época, foi vendida pela família em meio a dois momentos delicados da história mundial: a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial. Sua trajetória está ligada às chamadas “casas de conforto”, mantidas principalmente pelo Exército Imperial Japonês.
Grama assume o formato de relato testemunhal, em que o depoimento de Ok-sun Lee se entrelaça com acontecimentos históricos que marcaram sua vida, tais como: as casas de conforto; o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki; e os horrores enfrentados pelas vítimas, incluindo a perda dos nomes coreanos.

Como acompanhamos diversos flashbacks do passado de Ok-sun Lee, é impossível não considerar seu relato ao mesmo tempo corajoso e pesado. Keum Suk Gendry-Kim traz um nível de detalhamento no roteiro que certamente emocionará o leitor em vários momentos. Mesmo utilizando a linguagem dos quadrinhos, a autenticidade e a força de cada quadro de Grama são muito poderosas.
Com arte impecável que não suaviza a dura trajetória de Ok-sun Lee, a autora constrói uma narrativa gráfica à altura dos horrores vividos pela protagonista. A delicadeza do traço não esconde os pesadelos que assombraram muitas mulheres na Ásia. Os diálogos tocam diretamente nas feridas de uma sociedade construída sobre os escombros de problemas sociais e violações de direitos humanos que ainda permanecem sem reparação.
Grama é uma reflexão necessária, contada a partir dos olhos de Ok-sun Lee e habilmente registrada por Keum Suk Gendry-Kim.
★★★★★
Grama
Roteiro: Keum Suk Gendry-Kim
Arte: Keum Suk Gendry-Kim
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Jae Hyung Woo
Páginas: 488
Lançamento: 2020
Publicação Original: 그래스 (2017)
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