Algumas obras sempre ocuparam e continuarão a ocupar um lugar especial nas listas de leituras obrigatórias, seja por estarem atreladas a criadores de sucesso, cujas histórias são consideradas obras-primas, seja pela importância dentro de um contexto, principalmente pela contribuição ao cenário e à sua evolução nos anos seguintes. Ainda que o quadrinho Juan Solo não seja exclusivamente uma obra de Alexandro Jodorowsky (roteiro), ele a divide com Georges Bess (arte). Nunca se falou tanto sobre Jodorowsky no cenário nacional.
É inegável a contribuição de Alexandro Jodorowsky para os quadrinhos. Seu nome marcou época e seu espaço e reverência são mais do que merecidos. Juan Solo, publicado em edição definitiva no Brasil pela Editora Conrad em 2022, talvez não seja o melhor quadrinho para começar a ler Jodorowsky e Bess, mas isso fica ao critério do leitor, que precisa levar em consideração a acessibilidade do catálogo de ambos. Além disso, é importante destacar que a obra aborda de forma exaustiva conteúdos sensíveis, restritos a um público maior de 18 anos.
Juan Solo conta com roteiro de Alexandro Jodorowsky, autor de Incal, A Casta dos Metabarões e Cara de Lua, e possui arte de Georges Bess, responsável por The White Lama e Anibal 5. A narrativa apresentada por Jodorowsky não é convencional e mostra que o autor buscou chocar e convencer pelo grotesco. Apesar dos temas delicados, que permeiam discussões acaloradas em nossa sociedade atual, o quadrinho procura dimensionar a opinião do leitor acerca desses assuntos. Hardcore é uma palavra que descreve muito bem a jornada do protagonista e como suas ações se revelam consequências de tudo o que ele teria vivido desde o nascimento.

O que temos aqui não é um protagonista lidando com questões morais. Juan Solo é o oposto. Com uma origem difícil, sendo rejeitado e abandonado em um lixão na América do Sul, totalmente largado à própria sorte, já nas primeiras páginas somos convidados ao primeiro embate do roteiro, que emprega elementos do cristianismo como parte da essência do protagonista. Com uma visão cética, o quadrinho é chocante não apenas pela violência em diversos níveis, mas por transitar por temas delicados sem poupar o leitor dos excessos visuais, que permitem identificar e compreender o modus operandi do roteiro de Jodorowsky.
É difícil afirmar que outro artista, além de Georges Bess, conseguiria expressar com tanta magnitude o roteiro de Jodorowsky por meio da arte. Juan Solo utiliza cores fortes como recurso para o desenvolvimento de sua narrativa. Os cenários retratados com tons quentes, assim como os personagens, reforçam a sensação de incômodo inicial que o roteiro entrega com o avançar de cada página, fazendo com que o relato cruel e sombrio da vida de Juan Solo impacte o leitor.
Juan Solo não é um quadrinho que agradará a todos. Essa afirmação está diretamente relacionada aos temas que Jodorowsky decide delinear como parte do roteiro, e não apenas pela sensibilidade deles. A obra trata de forma criativa a dominância da religião como meio político de atingir as massas, o que pode causar em alguns leitores um impacto ainda maior do que as cenas de violência sexual. É uma história que possui elementos de discussão e reflexão, apesar de seu desenvolvimento focado na redenção do protagonista, que não deseja seguir o caminho considerado correto para alcançá-la.
No final, Juan Solo é uma leitura obrigatória como parte do legado de Alexandro Jodorowsky e Georges Bess, além de representar uma reimaginação da arte a partir de um conteúdo extremamente sensível.
★★★★
Juan Solo
Roteiro: Alexandro Jodorowsky
Arte: Georges Bess
Editora: Conrad
Páginas: 224
Lançamento: 2022
Publicação Original: Son of the Gun (2001)
Deixe um comentário