Celestia é o tipo de quadrinho que pode chamar a atenção da grande massa em muitos aspectos. Lançado no Brasil por uma editora reconhecida entre o público e, principalmente, por seu autor, tornou-se um dos queridos do mercado editorial nacional. Não simplesmente por ter chamado atenção sem qualquer propósito, mas porque Manuele Fior entrega histórias com atributos que conseguem furar bolhas do nicho de quadrinhos e, sem qualquer pretensão, flerta com narrativas que, apesar de não serem definidas como de super-heróis, caminham muito bem nessa linha tênue, atingindo um público misto. Não apenas os leitores de tramas sem ambientação direta sob essa perspectiva, mas também aqueles que consomem quadrinhos de heróis.
Sendo sua primeira obra lida, Celestia, além de agradar pelo visual, reforça o motivo do sucesso de Fior entre os leitores e entrega uma característica muito pessoal. Analisando sob essa perspectiva, o quadrinho, publicado no Brasil pela Editora Pipoca & Nanquim, é uma boa referência de como uma trama bem construída, personagens e arte, quando combinados, podem esconder até mesmo reflexões nas entrelinhas de cada diálogo, que se perdem em meio a uma arte estonteante. O quadrinho, apesar de considerado uma distopia, não se limita ao contexto que o gênero poderia exigir.

Para isso, Manuele Fior foca em dois personagens, Dora e Pierrô, sobreviventes de um grande momento da história de Celestia, conhecido como Grande Invasão. É sob o olhar desses dois personagens que o roteiro se desenvolve. Há ainda outros personagens que servem de âncora para conectar os acontecimentos aos protagonistas. De forma pouco convencional, ambos são ligados e, a partir de um ponto avançado da narrativa, sua interação assume momentos reflexivos, com mensagens nas entrelinhas que, no fim das contas, permitem ao leitor captar significados além da experiência de leitura.
Nesse contexto, em um mundo repleto de marginais com os mais diversos objetivos, a dupla de jovens telepatas dá sobrevida aos acontecimentos do quadrinho. Mesmo mostrando que ambos já lidam, à sua maneira, com os poderes de telepatia, Celestia busca expor as fragilidades e anseios desses personagens com certo afinco. A problematização de quase uma jornada de herói, ainda que o quadrinho se abstenha de ser uma história de super-heróis, está enraizada do início ao fim dentro desse nicho das HQs.

Manuele Fior utiliza Celestia, no fim das contas, como uma ficção climática, considerado um gênero cujo principal objetivo é alertar, por meio da ficção, sobre o que pode acontecer com o planeta nas próximas gerações. Isso reforça a busca do autor em explorar, de forma ambígua, questões reais sob uma perspectiva crível ao leitor, que identifica os pontos que o quadrinho de fato procura discutir. Essa familiaridade do autor com narrativas intimistas e de grande força pode ser reforçada por seu próprio legado no mercado de quadrinhos.
Tudo em Celestia é utilizado como atributo: diálogos e paleta de cores escolhida por Fior para compor cenários e personagens. Tudo isso converge para transmitir uma mensagem muito específica. A polarização de pensamentos sobre o que é certo ou errado, sobre as interações humanas em questões climáticas, está enraizada em cada quadro. Há uma moralidade nos personagens que provoca no leitor o reconhecimento da causa e do caminho que a trama precisa percorrer. De modo geral, o quadrinho transita por muitos gêneros diferentes, ainda que esteja conectado diretamente à distopia. Manuele Fior consegue, com Celestia, explorar discussões profundas por meio de sua arte.
★★★★
Celestia
Roteiro: Manuele Fior
Arte: Manuele Fior
Editora: Pipoca e Nanquim
Páginas: 276
Lançamento: 2022
Publicação Original: Celestia (2019), Atrabile
Onde encontrar: Amazon | Editora
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