Os quadrinhos podem ganhar uma função muito maior do que apenas a sequência de balões ou um conjunto de artes estilizadas. O impacto necessário para que qualquer adaptação consiga atingir seu público-alvo vai além de apresentar um roteiro consistente e uma arte impecável. Esses são pontos que deveriam constar em todos os tipos de quadrinhos, mas é importante considerar que a interpretação e o julgamento sobre uma obra ser regular, ruim, boa ou ótima dependem exclusivamente de quem a lê. Beowulf, de Santiago García e David Rubín, lida muito bem com as responsabilidades assumidas ao adaptar um dos poemas mais importantes da literatura mundial.
Beowulf, apesar de ser um poema escrito por um autor que acabou ficando desconhecido do grande público, permanece como um marco na literatura inglesa. Até hoje não se sabe ao certo quem deveria ser creditado como o criador da obra. O poema se tornou não apenas uma contribuição literária, mas um divisor de águas em várias esferas da construção da sociedade inglesa ao longo dos anos. Possivelmente, hoje em dia, é impossível não ter ouvido falar sobre a obra. Sua importância foi tão singular que acabou influenciando grandes nomes do gênero fantasia, que buscaram em sua estrutura novas formas de apresentar a jornada de um herói.

Com roteiro de Santiago García e arte de David Rubín, Beowulf é uma adaptação em quadrinhos do famoso poema. A versão apresentada pelos artistas se preocupa com aspectos que conferem um toque contemporâneo ao resultado final. Além de trazer uma abordagem mais atual tanto ao roteiro quanto à arte, a obra busca, por meio de recursos visuais, prender a atenção do público. O resultado é uma arte impactante nas cenas em que o clímax da história chega ao seu ápice, alinhada a um roteiro que, além de situar, apresenta ao leitor a magnitude de Beowulf.
Na trama, o rei dinamarquês Hrothgar vê seu salão ameaçado por ataques de uma criatura chamada Grendel. Com a perda de vários de seus soldados, o rei se vê impossibilitado de vencer a criatura. Toda sua esperança é depositada em Beowulf, um herói desprendido dos mais diversos caprichos. Assim como no original, o quadrinho é estruturado em três partes: monstro, mãe e outro monstro. Em cada uma dessas divisões, o protagonista enfrenta um desafio diferente. A narrativa busca transformar a visão do leitor por meio de camadas que constroem a jornada do herói.

Beowulf é um personagem que possui elementos singulares. Mesmo com a adaptação de um poema escrito possivelmente no século VIII, alguns aspectos que contribuem para a execução do personagem estão interligados às possibilidades narrativas dos quadrinhos. O protagonista, ainda que apresentado de forma desprendida em relação ao que o rei Hrothgar pode lhe oferecer, confere à história um tom de descoberta que se consolida a cada página desenvolvida pelos artistas. A abordagem ao leitor privilegia cenas bem desenhadas e impactantes mais do que grandes diálogos, como se espera de um épico.
A modernização de uma narrativa como Beowulf pode oferecer riscos a quem se propõe ao desafio. Santiago García e David Rubín, ao se unirem, foram além da ousadia. A imprevisibilidade do roteiro e a força da arte compreendem muito bem o verdadeiro sentido épico do famoso poema de origem escandinava. A obra transmite não apenas a jornada de um herói, mas também um conjunto de possibilidades de interpretação e apreciação visual. Somada à edição lançada no Brasil pela Editora Pipoca e Nanquim, a adaptação cumpre com grande vigor seu objetivo. O leitor brasileiro certamente ganha com uma das melhores interpretações do poema milenar já publicadas por aqui.
★★★★
Beowulf
Roteiro: Santiago García
Arte: David Rubín
Editora: Pipoca e Nanquim
Páginas: 204
Lançamento: 2018
Publicação Original: Beowulf (2016), Image Comics
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