Alguns quadrinhos são muito mais do que um roteiro bem executado ou uma arte para contemplar. Assim como outras mídias, eles também buscam falar sobre temas sérios. Abuso sexual, apesar de ser um tema sério, ainda é evitado por muitas editoras e até mesmo por artistas. O Golpe da Barata, publicado pela Editora Comix Zone, narra o tema em seu âmbito familiar — local onde se espera proteção, porém sabemos que é mais comum do que se imagina haver abusos, principalmente cometidos contra menores, por pessoas próximas. Ainda que seja um tema sério, buscando a discussão saudável e a possibilidade de contar sua própria história, a autora Gato Fernández percorre os momentos mais tristes de sua infância.
Nossa protagonista, Lucia, é um alter ego escolhido pela própria autora, e relata sua jornada, quando criança, com os abusos cometidos pelo seu próprio pai. No quadrinho, ainda que não se escondam as referências aos momentos, Gato Fernández imprime uma delicadeza, tanto no roteiro quanto na arte, que causa certa reflexão no leitor. O Golpe da Barata nada mais é que uma representação, em diversos aspectos, das dores e traumas que acometeram a autora ao longo de sua vida. É visível como, a cada página, o quadrinho propõe reflexões.

Ao longo do seu desenvolvimento, Lucia é apresentada como membro de uma família consideravelmente pequena: sua mãe, irmão, pai e avó. Todos são retratados com características marcantes, porém muito comuns: o irmão que está sempre ao lado da irmã, ao mesmo tempo que estão brigando por vários motivos; a mãe que está ausente durante todo o dia e que, ao retornar para casa após o trabalho, é vítima de violência doméstica; a avó que se esconde atrás da religião, mas cujas ações contradizem os manuais de boa convivência; e, por fim, temos o pai: opressor, agressivo e abusivo.
Gato Fernández, apesar de explorar momentos marcantes e dolorosos de sua infância, assim como ela mesma relata em um texto ao final do quadrinho, não poupa o leitor. Esse mérito que ela alcança contando sua história transmite uma sensibilidade necessária para o leitor apenas embarcar na narrativa da autora. O que mais impressiona no quadrinho é a suavidade que a autora estabelece em sua arte. Seus traços, apesar de marcantes, apresentam certa delicadeza, assim como o roteiro. É impossível não se emocionar com a jornada de Lucia e com o quão importante é debater o tema, ainda que, na realidade, como sociedade, não queiramos que isso aconteça.

A autora coloca alguns elementos na narrativa do quadrinho que funcionam como uma grande metáfora de sua vida. Ela encontra em objetos e animais a possibilidade de retratar este momento complexo. Fernández acaba fazendo uma relação entre as consequências de uma criança sofrer abuso sexual e a aparição de baratas. Na psicologia, alguns momentos que as pessoas retratam como uma barata são associados a períodos de grande aborrecimento, rejeição e isolamento. Além disso, sonhar com este tipo de animal reforça a necessidade de solucionar lembranças desagradáveis.
O Golpe da Barata, de Gato Fernández, assim como muitos quadrinhos que tratam sobre abuso sexual, além de ser uma possibilidade de falarmos sobre o assunto, é uma válvula de escape para a autora. É difícil, além de se apegar ao roteiro, à arte e aos personagens, não se emocionar junto com Fernández e sua autoficção. Ao final do quadrinho, é inegável o quanto a artista entrega para a experiência do leitor. Um texto chamado “A Necessidade” ainda compõe sua parte final, onde a autora descreve como foi lidar com tudo ao longo de sua vida, o que complementa a jornada do leitor. É inegável como O Golpe da Barata é uma leitura indispensável.
★★★★
O Golpe da Barata
Roteiro: Gato Fernández
Arte: Gato Fernández
Editora: Comix Zone
Páginas: 112
Lançamento: 2021
Publicação Original: La sombra de la cucaracha (2020), Historieteca
Onde encontrar: Amazon | Editora
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