A mente de um fã, quando atiçada pelos mais diversos aspectos, pode construir tramas inacreditáveis. E o que acontece quando isso se torna uma lenda urbana que, a cada ano, ganha novos capítulos? Foi exatamente o que ocorreu com uma das maiores lendas urbanas já criadas: a possível morte de Paul McCartney. Dificilmente você não ouviu, ao longo da vida, essa quase teoria da conspiração em que o Beatle teria morrido em um acidente de carro e sido substituído por um sósia, certamente um dos acontecimentos mais estranhos a permear a jornada da banda em seus anos de atividade. Seja verdade ou mentira, diversas pistas foram sendo deixadas pelo próprio grupo em suas músicas e álbuns posteriores a 1967.
Publicada no Brasil pela editora Comix Zone, Paul Está Morto – Quando Os Beatles Perderam McCartney apresenta os desdobramentos desta lenda urbana, bem como o seu surgimento e desfecho. Ao longo de 120 páginas, os artistas Paolo Baron e Ernesto Carbonetti se debruçam sobre o acontecimento e entregam aos leitores uma verdadeira obra-prima moderna. Sendo um título um pouco destoante dos publicados até então pela editora no país, a publicação deve ser lida sob outras perspectivas, destacando-se pelo roteiro objetivo focado em pessoas reais, além de uma arte e projeto gráfico que funcionam como aliados competentes.

No auge da Beatlemania, em meados dos anos 60, um acidente de carro é responsável por uma das maiores incógnitas do cenário musical: após avançar o sinal, o carro de Paul McCartney acaba se chocando com outro. Conforme relatado pelo próprio Beatle, o acidente teve suas consequências reais, porém o que foi noticiado ao público teria sido algo diferente. Tendo como plot inicial as desavenças criativas entre os quatro integrantes enquanto se preparam para gravar um novo álbum, a tragédia pode ter sido causada justamente pelo esgotamento perante os últimos acontecimentos que envolveram a banda.
Apesar de lidar com um mito da cultura popular, os autores colocam John Lennon como personagem principal. Como isso é possível? Ainda que a ação seja conduzida pela lenda urbana em torno de Paul, cabe a Lennon recorrer às principais camadas da história, pois, sem acreditar que o amigo tenha realmente morrido, ele busca por pistas que possam desconstruir o mito. Responsável pela condução de 95% dessa brilhante história, John Lennon é quase alçado ao papel de um CSI (ainda que sua preocupação seja genuína, de acordo com o roteiro).

A arte de Ernesto Carbonetti é um dos pontos altos da publicação, explorando uma vertente cartunesca com cores estrategicamente definidas para dar suporte ao roteiro de Paolo Baron. Lançado primeiramente na Itália e posteriormente reeditado pela Image Comics, é difícil imaginar outra editora lançando esta obra no mercado editorial, tendo em vista o impecável resultado final. A liberdade criativa dos artistas em recontar um tema que poderia caminhar por argumentos clichês é, reconhecidamente, um importante mérito.
Sendo fã ou não dos Beatles, Paul Está Morto – Quando Os Beatles Perderam McCartney é recomendado para todos os públicos. Obviamente, para os fãs da banda a conexão será imediata, mas para aqueles que simplesmente apreciam uma trama concisa e uma arte impecável, o quadrinho é altamente recomendável. Construindo sua narrativa nas mediações de um período pré-internet (onde lendas se popularizavam por outros meios), a HQ é estruturada com início, meio e fim que conversam perfeitamente com um trabalho gráfico admirável. Sem dúvidas, uma excelente porta de entrada para as publicações da editora Comix Zone e para o trabalho de Paolo Baron e Ernesto Carbonetti.
★★★★★
Paul Está Morto – Quando Os Beatles Perderam Mccartney, Editora Comix Zone
Roteiro: Paolo Baron
Arte: Ernesto Carbonetti
Número de páginas: 120
Lançamento: 2020
Onde encontrar: Amazon | Editora
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