Escrever sobre qualquer obra de Jiro Taniguchi é sempre um grande desafio. Um dos autores mais conhecidos do Japão, com uma extensa obra publicada ao longo de 50 anos de carreira, sua mente criativa caminhou por diversos gêneros. No Brasil, suas obras mais conhecidas são Guardiões do Louvre (Pipoca & Nanquim), O Gourmet Solitário (Devir) e O Homem que Passeia (Devir). Um dos nomes mais respeitados do Japão, o autor levou considerável tempo para chegar ao Brasil, uma vez que seus primeiros trabalhos foram publicados em 1979. A chegada de suas obras em versões nacionais mostra um novo momento no cenário editorial brasileiro, que tem apostado cada vez mais nos grandes autores da cultura oriental. Com isso, hoje em dia é muito mais comum o nome de Taniguchi circular nas rodas de conversa sobre mangás do público brasileiro do que no passado.

Uma característica das obras de Jiro Taniguchi, principalmente nas publicações que ganharam versões nacionais, está justamente em sua habilidade de destrinchar suas criações por camadas. Além de um roteiro geralmente implacável e cheio de críticas, sua arte é um capítulo à parte. Suas obras, em sua grande maioria, lidam com situações do dia a dia, o que sempre demonstrou uma característica muito própria na sua forma de dialogar com os leitores. Essa forma de interação é surpreendentemente o oposto de As Crônicas da Era do Gelo Vol. 1. Utilizando a ficção científica para contar novas histórias, repletas de críticas nas entrelinhas, a obra já fazia muito sentido quando publicada pela primeira vez em 1988. Não seria preciso nem correlacionar com a atual situação do mundo quanto às mudanças climáticas, que são discutidas ano após ano.
Apresentando ao leitor uma trama de ficção científica pós-apocalíptica, conhecemos Takeru Yamato. Antes de falar sobre o protagonista, é importante situar a trama do mangá. A história se passa no futuro, onde as mudanças climáticas tomaram proporções tão grandes que os seres humanos precisam lutar para sobreviver. Em resumo, as altas e baixas temperaturas se tornaram um problema para a continuidade da existência humana. O mundo já não possui uma forma de organização em que grandes potências existam. Ou seja, na realidade criada por Taniguchi, países como Estados Unidos e Japão deixaram de existir devido às mudanças climáticas. Mas o que o autor busca apresentar com o mangá é muito mais do que uma discussão sobre as temperaturas mundiais.

O resultado deste primeiro volume é um vislumbre de toda a sua longa produção editorial. Jiro Taniguchi é, sem dúvida, um grande autor, sem necessidade de se provar ao leitor. Suas histórias entregam muito mais do que bons desenhos e tramas concisas: Taniguchi emprega todo o seu talento e dedicação, até mesmo nos gêneros em que menos se aventurou, como a ficção científica pós-apocalíptica.
Muito conhecido por suas tramas cotidianas, As Crônicas da Era do Gelo Vol. 1 não se abstém da assinatura de seu criador. As interações dos personagens, ainda que tenham propósitos maiores, não perdem a característica de Jiro Taniguchi em entrelaçar camadas nas jornadas de seus protagonistas. Isso fica evidente com Takeru. Assim como o desenvolvimento dos personagens, é muito bem explorada a necessidade de sobrevivência dos seres humanos. E, como crítica ao futuro, a trama do mangá ainda aborda a interação dos seres humanos com a tecnologia em situações extremas. Esse é o grande ponto deste primeiro volume, que além de situar o leitor sobre cenários, personagens e tramas, toca em assuntos importantes e atuais. Ao imaginar que a obra foi publicada originalmente há mais de 30 anos no Japão, Jiro Taniguchi pode e deve ser considerado um visionário.

★★★★
As Crônicas da Era do Gelo Vol. 1
Roteiro: Jiro Taniguchi
Arte: Jiro Taniguchi
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Drik Sada
Páginas: 276
Lançamento: 2021
Publicação Original: 地球氷解事紀 (1988), Kodansha
Onde encontrar: Amazon | Editora
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