Dando continuidade à sua contribuição à ficção científica, escrita por Jiro Taniguchi, As Crônicas da Era do Gelo Vol. 2, lançado no Brasil pela Editora Pipoca & Nanquim, encerra a aclamada obra do famoso mangaká. Possivelmente você conhece as publicações do autor por obras que apresentaram um traço característico e uma linha narrativa quase sempre comum. A identidade do artista, ao longo dos anos, foi se consolidando com histórias que possibilitavam ao leitor alguns questionamentos mais existenciais. Por isso, quando se fala sobre Jiro Taniguchi e As Crônicas da Era do Gelo, ambos quase não seriam atrelados, com exceção pelos leitores mais ávidos. Assim, a publicação do mangá no Brasil possibilitou aos leitores brasileiros conhecer uma outra vertente do autor.
Essa conexão entre obra e artista fica ainda mais evidente com o desenvolvimento da trama no Vol. 2. Enquanto a primeira edição se preocupa em ambientar todo o cenário e personagens, a segunda edição, que começa no Capítulo 11, tem outras preocupações. Uma de suas principais características enquanto construtor de histórias está justamente na possibilidade de dar várias camadas aos seus personagens. Essa experiência em suas obras fica tão evidente que, apesar de uma trama totalmente ligada à ficção científica, Taniguchi parece querer desafiar o leitor em todo momento.

Diferentemente de suas aparições nos capítulos anteriores, Takeru Yamato, o protagonista de As Crônicas da Era do Gelo, é melhor desenvolvido nesta parte. Dizer que seu desenvolvimento foi aprimorado com o avançar da história não significa que Yamato fosse um personagem ruim. Pelo contrário, sua evolução enquanto protagonista é nítida. Isso vai muito além de uma análise de sua jornada ao longo do mangá: de um jovem sem total ideia de sua importância à trama, sua escalada na história é orgânica e condizente com as principais marcas narrativas de Jiro Taniguchi.
As mudanças climáticas continuam sendo um ponto debatido em As Crônicas da Era do Gelo. Apesar de pouco previsível, a trama do mangá, ainda que continue de forma eficiente a explorar as principais nuances do enredo estabelecido por Jiro Taniguchi, o Vol. 2 também deve ser lembrado como muito mais que um mero desfecho. As tramas que se desenvolvem e a forma como o leitor é situado pelo autor acabam criando novas possibilidades e ainda mais linhas narrativas para cada personagem. Utilizar a ficção como forma de levar uma crítica social é, de fato, uma das principais marcas do mangá.

Cadenciando o desenvolvimento da obra, Jiro Taniguchi entrega ao leitor um dos principais títulos de ficção científica já lançados. Não pela grandiosidade do autor, mas pela construção da trama, dos personagens e dos cenários. As críticas apresentadas nas entrelinhas de As Crônicas da Era do Gelo, ainda que haja uma distância entre o lançamento original e a publicação no Brasil, se mostram atuais. É importante destacar como o roteiro do mangá se desenvolve ao ponto de colocar os personagens numa espécie de quebra da quarta parede (ainda que tecnicamente não tenha sido a intenção).
Ao final da leitura de As Crônicas da Era do Gelo Vol. 2, é certamente fácil chegar a algumas conclusões. Tudo isso graças aos artifícios narrativos utilizados por Jiro Taniguchi, bem como seus traços tão característicos de toda a sua obra. É preciso olhar de forma despretensiosa para os principais objetivos do autor com a leitura de sua obra. Explorar as diversas camadas da construção de um personagem e transpor isso de forma clara, sem exceder na grandiosidade e na experiência do leitor, fazem de Taniguchi um dos principais autores capazes de colocar o público numa posição confortável, com uma trama que entrega nas entrelinhas uma crítica social muito além dos parâmetros.
★★★★
As Crônicas da Era do Gelo Vol. 2
Roteiro: Jiro Taniguchi
Arte: Jiro Taniguchi
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Drik Sada
Páginas: 312
Lançamento: 2021
Publicação Original: 地球氷解事紀 (1992), Futabasha
Onde encontrar: Amazon | Editora
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