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Confins de um Sonho, de Yumi Sudo

Anos atrás, era basicamente impossível encontrar histórias para todos os públicos no mercado brasileiro. Algumas editoras saíram na frente e, de certa forma, abriram portas para que o mercado de mangás ganhasse fôlego e se tornasse possível a publicação de obras como Confins de um Sonho, de Yumi Sudo. Apesar de sempre haver interesse dos leitores pela variedade de títulos, era pouco provável que, há 20 anos, um mangá com uma história LGBTQIA+ fosse publicado sem um viés estritamente comercial.

Afinal de contas, as editoras brasileiras precisam de números, já que o público enfrenta dificuldades, primeiramente em sua renovação e, em segundo lugar, pelos altos preços praticados. Confins de um Sonho, de Yumi Sudo, é um respiro no mercado brasileiro em meio aos títulos “padrões” que dominam a lista dos mais vendidos. O que não é um problema, já que mangás com histórias universais viabilizam que obras com narrativas mais contemplativas também encontrem espaço.

Nesse contexto, Confins de um Sonho, apesar de estar classificado dentro de uma demografia específica, pode ser lido por todos. É preciso esclarecer que sua demografia não o limita: trata-se de uma história de amor universal. No centro da narrativa estão Kiyoko e Mitsu, agora idosas, que contam a partir de seus pontos de vista a trajetória de seu amor, repleta de dificuldades, mostrando como seus caminhos seguiram juntos por um tempo e, principalmente, como se conectam com o futuro.

Yumi Sudo não é uma mangaká muito publicada no Brasil. Assinando tanto o roteiro quanto a arte de Confins de um Sonho, ela consegue estabelecer uma conexão muito pessoal com os leitores. O mangá se abstém de cenas eróticas entre mulheres para falar sobre conexão e sobre como, no fim das contas, nem todas as histórias possuem finais felizes. Esse ponto de vista da autora, ao desenvolver as protagonistas em diferentes épocas e mostrar aspectos íntimos de cada uma delas, além de relacionar a narrativa aos preconceitos ainda presentes na cultura japonesa, faz do mangá quase um retrato documental da vida real.

Confins de um Sonho não é um mangá que pretende arrancar lágrimas dos leitores — claramente o objetivo de Yumi Sudo está longe de ser esse. Seu roteiro é estrategicamente construído para contar uma história de amor e todas as nuances que envolvem qualquer relação LGBTQIA+. A jornada de Kiyoko e Mitsu é retratada de maneira delicada em cada página, seja pela fragilidade das personagens, seja pelo traço sensível da mangaká.

A narrativa percorre do pós-guerra até os dias atuais, em ordem decrescente, concluindo a jornada de cada protagonista como se fosse um quebra-cabeça que vai sendo montado peça por peça. É interessante notar que Yumi Sudo não poupa críticas à sociedade japonesa, seja nos diálogos entre as personagens, seja em sua própria voz como narradora, ao expor a condução dos relacionamentos LGBTQIA+ diante da sociedade. A obra é um drama que explora as fragilidades das relações sociais não apenas entre pessoas do mesmo sexo, mas também o peso que o preconceito pode exercer e como ele pode destruir conexões entre indivíduos, em suas mais diversas formas de expressão do amor.

★★★★
Confins de um Sonho
Roteiro: Yumi Sudo
Arte: Yumi Sudo
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Drik Sada
Páginas: 300
Lançamento: 2023
Publicação Original: 夢の端々(2020)

Escrito por
Gabrihel Campos

Depois que me perdi entre páginas e histórias, não consegui mais largar os livros. Sou fã de Star Wars, Star Trek e Doctor Who — e se você curte uma boa leitura e universos cheios de aventura, já estamos no caminho certo. Sou Gabrihel, criador do Recomendo Ler, onde compartilho resenhas sinceras e dicas de livros que me marcaram. Não faço cerimônia: aqui todo gênero é bem-vindo, só não peço para gostar de spoilers, por favor.

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