Na contramão do atual momento do mercado editorial no Brasil, a Editora Pipoca & Nanquim mais uma vez surpreendeu ao lançar sua versão da adaptação de Elric, do autor britânico Michael Moorcock, desta vez sob adaptação de um nome já conhecido pela editora brasileira: P. Craig Russell. A primeira incursão do autor no catálogo da editora aconteceu em 2018, com O Anel do Nibelungo, obra que pode ser considerada a principal de Russell já lançada e publicada no Brasil. Sua relevância em toda a cena dos quadrinhos não é apenas um dos motivos do lançamento de Elric: Stormbringer em versão nacional, mas também sua consistente construção e entrega de excelentes histórias como parte de seu legado.
Adaptações, como o próprio nome diz, fogem da mentalidade clichê de tentar superar a obra original. Elric: Stormbringer, em muitos aspectos, é uma trama que atinge grandes clímax, mas não se excede na fantasia que permeia a essência do personagem em função de alguns resultados mais comerciais. É difícil não perceber que P. Craig Russell assume esse legado mais artístico ao contextualizar o roteiro de suas obras. E acredite: esse é um verdadeiro ponto positivo para o leitor que busca esse tipo de mensagem dentro de um quadrinho de modo geral.

Elric: Stormbringer, de P. Craig Russell, acompanha a jornada de Elric, um albino atormentado por suas designações enquanto imperador de um mundo rodeado de criaturas e maldade. O personagem, além de estar ligado às principais profecias de sua época, é o tempo todo assombrado por perdas que lhe foram retiradas ao longo da narrativa. Importante lembrar que essa adaptação de Russell não é uma história de origem do personagem, e isso se confirma com o quadrinho, que assume ser uma adaptação do último livro de Elric.
Neste contexto, alguns conhecimentos prévios são necessários, mas a introdução do quadrinho, assinada por Russell, cumpre muito bem essa função. Isso pode ser um fator complexo na escolha da leitura, afinal de contas, Elric: Stormbringer pode deixar de lado momentos importantes na concepção do protagonista, que precisam ser captados ao longo da leitura ou com uma mera pesquisa no Google — informações facilmente disponíveis. Importante lembrar que Stormbringer é muito mais reflexivo ao longo de suas páginas, com longos diálogos e uma arte que definiu, no final das contas, a trajetória de Russell ao longo dos anos.

Sem qualquer problematização, Elric: Stormbringer nada mais é do que um quadrinho de fantasia que mostra a jornada de um personagem excêntrico e motivado. Não se engane ao generalizar uma das principais obras que levaram ao reconhecimento de P. Craig Russell: seu roteiro e sua arte são elementos inconfundíveis, mesmo para aventureiros de primeira viagem. A jornada de Elric assume alguns riscos, mas o personagem vai ganhando muitas camadas ao longo da narrativa. Todas as decisões criativas são, no final das contas, para contar a queda de Elric sob os mais diversos olhares — seja o seu próprio, seja o dos personagens secundários que caminham ao seu lado.
Talvez um dos projetos mais longos do autor, publicado entre 1982 e 1997, Elric: Stormbringer é o exemplo de uma boa história bem construída, seja no roteiro ou na arte. Esses dois atributos dificilmente conseguem estar na mesma via, mas quando isso acontece, o resultado é sempre positivo. Apesar de funcionar muito bem com todos os públicos, Elric: Stormbringer pode acabar sendo nichado, dada a forma característica de se contar histórias e o período em que foi lançado originalmente. Em tempos em que os diálogos estão cada vez mais superficiais e a arte preocupada apenas com grandes explosões, esquecendo a magnitude dos cenários, este quadrinho é uma verdadeira quebra de paradigmas.
★★★★
Elric: Stormbringer
Roteiro: P. Craig Russell
Arte: P. Craig Russell
Editora: Pipoca e Nanquim
Páginas: 212
Lançamento: 2022
Publicação Original: Elric: Stormbringer (1982 – 1997), Dark Horse Comics
Onde encontrar: Amazon | Editora
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