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Parque Chas, de Ricardo Barreiro e Eduardo Risso

O bairro argentino que virou cenário de realismo mágico e terror psicológico nos quadrinhos.

Parque Chas foi de um dos bairros mais conhecidos da Argentina a cenário de diversas histórias fictícias, induzidas pela sua construção em formato circular, que para muitos se parece com um labirinto. Não fosse a única estranheza, as ruas do bairro receberam nomes de importantes cidades europeias. Esse cenário místico que se formou em torno do bairro serviu também como inspiração para que Ricardo Barreiro e Eduardo Risso pudessem explorar, através de um quadrinho, esse realismo mágico com ares de terror psicológico.

O quadrinho conduz seu roteiro de modo que nenhum personagem assuma maior destaque que o próprio Parque Chas. De forma fantasiosa, a narrativa explora uma vertente das histórias latinas que ganham sustentação por meio verbal, contadas de geração em geração. Desse modo, há um interesse em estabelecer o bairro como um grande protagonista, que ameaça diversas figuras reais com sua imponência e principalmente em passar pelo boca a boca, à medida que novas informações sobre algumas lendas urbanas começam a ser exploradas.

Mesmo com o foco em seu próprio universo, Parque Chas acompanha um homem que busca uma nova moradia, enquanto pretende focar na escrita de seu mais novo romance. Ao ver o anúncio no jornal sobre um apartamento com preço barato, ele é seduzido e acaba fechando o aluguel com uma misteriosa proprietária. O único pedido envolve manter fechada uma janela. De forma alguma o novo proprietário poderia acessar a paisagem por essa janela, e o que mais chama atenção é que essa janela não existe para quem está vendo o prédio do lado de fora.

Estamos acostumados aos textos de fantasia mais complexos possíveis, com a exploração de novos mundos que requerem atenção redobrada dos leitores. Não que Parque Chas seja uma leitura superficial, pelo contrário, o quadrinho é sutil na composição do seu próprio universo, mesmo colocando diversos elementos fantásticos ao longo das páginas, como sereias, vampiros, fantasmas e figuras históricas. É relevante mencionar que todos são inseridos dentro de uma temática latina, que funciona de forma muito pessoal.

Com 152 páginas, Parque Chas conta histórias isoladas com desfechos solitários, que são conectadas por uma única narrativa. O quadrinho desenvolve em cada história uma vertente diferente do misticismo em torno do bairro, colocando elementos que contribuem para uma experiência completa do leitor no quesito realismo mágico. Vale lembrar que o roteiro caminha entre o realismo mágico e o terror psicológico, o que pode causar certo estranhamento. Esse estranhamento não reduz a qualidade do roteiro, nem o limita ao taxamento de uma história exclusiva de fantasia latina ou terror e suspense.

Não encare o quadrinho Parque Chas, de Ricardo Barreiro e Eduardo Risso, como uma história sem consequências. A publicação estabelece, por meio de algumas cenas violentas (não gratuitas), o seu lugar no cenário de quadrinhos argentinos. Apesar de se desenvolver por gêneros pouco comuns entre as narrativas que definiram uma geração de leitores das histórias com origem argentina, a publicação é um refresco agradável, como uma porta de entrada para esse mercado tão consolidado entre os leitores. Parque Chas é inventivo e consegue entregar nas entrelinhas uma grande aventura fantasiosa, por meio de muitos outros elementos, como o misticismo, o realismo, o terror e muito suspense.

★★★★
Parque Chas
Roteiro: Ricardo Barreiro
Arte: Eduardo Risso
Editora: Comix Zone
Páginas: 152
Lançamento: 2023
Publicação Original: Parque Chas (1987 – 1992), Revista Fierro

Escrito por
Gabrihel Campos

Depois que me perdi entre páginas e histórias, não consegui mais largar os livros. Sou fã de Star Wars, Star Trek e Doctor Who — e se você curte uma boa leitura e universos cheios de aventura, já estamos no caminho certo. Sou Gabrihel, criador do Recomendo Ler, onde compartilho resenhas sinceras e dicas de livros que me marcaram. Não faço cerimônia: aqui todo gênero é bem-vindo, só não peço para gostar de spoilers, por favor.

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