Somna conta com arte e roteiro de Becky Cloonan e Tula Lotay. O quadrinho foi publicado em fevereiro de 2025 no Brasil pela Editora Comix Zone. Nos Estados Unidos, a publicação aconteceu em três volumes em 2023 e posteriormente foi compilada em uma edição, como a publicada pela CZ. Becky Cloonan, roteirista e desenhista de Somna, não é desconhecida do público brasileiro. Além de seu trabalho com a DC Comics ser publicado pela Panini, a autora já tem uma obra bem conhecida lançada por aqui: Por Deus ou Pelo Acaso, publicada pela Editora Pipoca & Nanquim em 2020. Tula Lotay também tem algumas de suas contribuições com a DC Comics mais conhecidas, como Vampiro Americano, publicado por aqui. Nesse caso, não estamos falando de autoras desconhecidas do público brasileiro. Somna era aguardado com grande expectativa, uma vez que ganhou o prêmio de Melhor Nova Série no Eisner de 2024.
Uma breve sinopse de Somna: os leitores são transportados para o século XVII, cuja ambientação da história apresentada no quadrinho revela uma intensa caça às bruxas em uma pacata vila inglesa. Assim, conhecemos uma jovem mulher que é assombrada e se vê em meio a algo que pode colocar sua vida em grande perigo. Ao longo do vídeo, eu vou tentar explicar em detalhes. Vale lembrar que Somna não é indicado para menores de 18 anos.
Somna é um quadrinho que causa uma conexão com o leitor de forma muito genuína e rápida. Aqui vale reforçar que a união do talento de Becky Cloonan e Tula Lotay eleva o nível da história que elas nos entregam, seja pelo roteiro, que é bem interessante, ou pela arte. Diante de um roteiro que poderia caminhar por todos os clichês possíveis de uma história de caça às bruxas, tema que já foi abordado em diversos livros, quadrinhos, séries e filmes, é difícil não pegar uma obra como Somna com certa má vontade e pensar: mais uma vez, vamos ver o que há de novo por aqui.

E você não vai acreditar: não há nada de novo aqui. Mas o que você encontra é tão bem construído e com uma arte tão incrível que devora o quadrinho. Somna tem algumas restrições, como sua classificação indicativa, ao não ser indicado para menores de 18 anos. Não preciso deixar explícito, mas algumas abordagens são frequentes ao longo das páginas. No entanto, não são gratuitas. Tudo é colocado sob uma perspectiva que não soa forçada, dado o envolvimento tanto de Becky Cloonan quanto de Tula Lotay em tudo.
É possível considerar Somna um thriller erótico com muitas pitadas de terror, cuja ambientação é direcionada para um período em que se queimavam bruxas. Enquanto isso se desenvolve, temos ainda uma protagonista com muitos questionamentos que, para completar, é esposa de um caçador de bruxas.
Não é impossível enumerar alguns pontos positivos de Somna. Apesar de ser um quadrinho premiado por uma das principais premiações do mercado, ele não se resume a uma obra que deva ser lida apenas por isso. Costumo dizer que premiações são reconhecimentos necessários para autores de forma geral, mas nem sempre somos agraciados.

É pouco provável que a arte desse quadrinho não se coloque acima do roteiro. Acredito que aqui temos uma junção de traços que, embora distintos, se combinam muito bem. Enquanto Becky Cloonan é responsável pelos quadrinhos quando a protagonista está acordada, durante os seus sonhos é Tula Lotay quem desenha. Não seria injusto dizer que esse é o maior ponto positivo da obra, e não é uma crítica negativa. Essa decisão funciona tão bem que passo a considerar como uma mudança de rota para novas obras, em que o sonhar se torne tão relevante quanto é em Somna.
Gosto muito de como Becky Cloonan e Tula Lotay definem o tempo que cada personagem secundário terá para viver seu grande momento. A protagonista, que enfrenta muitos dilemas, não precisa ter sua história encurtada para dar espaço a personagens que pouco acrescentam. Elas viabilizam essas narrativas de forma muito orquestrada, o que considero um ganho.
Os sonhos eróticos da protagonista são trabalhados de forma cuidadosa por Cloonan e Lotay. Os quadros e diálogos das personagens femininas parecem mais reais. O cuidado com esse tipo de história, para que fuja do vulgar e do ofensivo, acredito que só foi possível porque ambas têm propriedade naquilo que resolveram estabelecer para Somna. Apesar das diversas cenas eróticas, elas estão integradas ao roteiro e não são soltas ou gratuitas.

Somna me trouxe uma experiência tão positiva em relação a tudo que foi desenvolvido ao longo de suas 168 páginas que, incrivelmente, não tenho grandes observações. A única ressalva é que histórias com teor erótico não são a minha praia. No caso de Somna, foi mais uma aposta, uma vez que eu já tinha gostado do quadrinho Por Deus ou Pelo Acaso, de Becky Cloonan, além de acreditar no catálogo da Comix Zone. Apesar de não haver gratuidade nas cenas eróticas, tudo está dentro do contexto da história. Para quem não curte tanto, pode ser um problema, mas vale a oportunidade.
Primeiramente, recomendo para maiores de 18 anos. Somna é um quadrinho que conversa com diversos públicos. Quem está dentro desse nicho deveria dar uma chance. Se você gostou de Salem, de Thomas Gilbert, publicado pela Darkside, Somna é para você. Vale lembrar também que, se você gosta de histórias que se passam nesse universo de caça às bruxas, tanto na literatura quanto em filmes e séries, dê uma oportunidade, porque é uma obra de alto nível e que bebe de muitas referências que vão fazer sentido para você.
E se você aprecia uma arte impecável, Somna também é para você. É difícil, às vezes, transcrever isso, mas Becky Cloonan e Tula Lotay fazem um trabalho sensacional. Talvez a arte aqui, se você não é leitor de quadrinhos, mostre o que está perdendo. E se você já lê, pode concordar comigo.
★★★★
Somna
Roteiro: Becky Cloonan e Tula Lotay
Arte: Becky Cloonan e Tula Lotay
Editora: Comix Zone
Páginas: 168
Lançamento: 2025
Publicação Original: Somna (2023), DSTLRY
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