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A União das Coreias, de Luiz Gustavo Medeiros

A União das Coreias tem um título bastante interessante, diga-se de passagem. O livro foi escrito pelo carioca — mas goiano de coração — Luiz Gustavo Medeiros. Explicando melhor: Luiz nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em Goiás há mais de 20 anos, podendo ser considerado um goiano legítimo. É graduado em Ciências Sociais, doutorando em Letras, e estreia no romance com esta obra. Contudo, essa não é sua primeira experiência no mundo da escrita: antes de A União das Coreias, lançou O Corpo Útil pela Editora Patuá.

No livro, somos apresentados a Paulo Henrique, um homem que, por meio de um fluxo de pensamento intenso, nos conduz por suas inquietações no auge de 2018, um período delicado no Brasil. Caso você não se lembre, a história se passa às vésperas das eleições daquele ano — marcado por forte polarização política, em que a divisão entre esquerda e direita se tornou ainda mais evidente. Era o início de uma separação que passaria a influenciar não só o debate público, mas também os relacionamentos e a vida cotidiana.

Apesar disso, A União das Coreias é narrado em terceira pessoa. Esse narrador nos guia pela rotina de um protagonista que enfrenta conflitos profundos e pessoais. Tudo acontece ao longo de um único dia útil — e é nesse intervalo que acompanhamos reflexões intensas, muitas vezes incômodas, que tocam em feridas abertas: política, herança racial, relacionamentos e a forma como ele enxerga o mundo ao seu redor.

O romance se encaixa no que chamamos de romance de duração, desenvolvendo-se muito bem dentro dessa estrutura. À medida que avançava na leitura, senti curiosidade em pesquisar mais sobre esse tipo de narrativa e encontrei conceitos e características que Luiz Gustavo Medeiros explora com clareza. É sempre interessante quando um livro nos surpreende. Quando o encontramos sem muito conhecimento prévio — além de recomendações, textos soltos ou informações da apresentação da obra — e acabamos descobrindo muito mais do que esperávamos.

O romance de duração é um termo usado para histórias que se desenrolam em um período de tempo bastante limitado — geralmente um único dia, ou até mesmo algumas horas. Esse tipo de estrutura narrativa não se preocupa tanto com a quantidade de acontecimentos, mas sim com a profundidade das experiências, pensamentos e emoções do personagem. Em vez de abarcar anos de vida, a história mergulha intensamente em um curto intervalo, explorando cada detalhe da vivência.

Com essa característica em mente, a leitura de A União das Coreias se torna ainda mais instigante. Esse formato faz com que cada nuance do livro ganhe peso e significado, permitindo que o leitor absorva as diversas camadas trabalhadas pelo autor. E camadas, aqui, não faltam. Paulo Henrique é um personagem extremamente complexo. Sua trajetória é moldada por sua origem, seus relacionamentos, as escolhas que fez ao longo da vida e, principalmente, pelo contexto sociopolítico vivido pelo Brasil em 2018. Tudo isso torna sua jornada densa e repleta de reflexões.

Falando mais diretamente da trama, conhecemos Paulo Henrique: um homem negro, concursado, que enfrenta um momento complicado no que diz respeito aos diversos relacionamentos da vida — sejam eles pessoais, profissionais ou até mesmo com suas próprias convicções. O livro conduz o leitor por uma série de pensamentos, em sua maioria apresentados por um narrador que adota uma postura de observação. Ainda assim, ele se faz muito presente, a ponto de, em alguns momentos, o próprio Paulo Henrique assumir a narração de sua jornada.

Nesse contexto, A União das Coreias nos apresenta um protagonista lidando com múltiplas questões: sua herança racial, constantemente evocada na narrativa; a dualidade entre amor e paixão, representada por dois de seus relacionamentos; a dificuldade de convivência no trabalho; e, claro, seu posicionamento político em meio à polarização que marcou o Brasil em 2018.

O ritmo do livro é intenso, já que Paulo Henrique quer condensar um recorte de sua vida em apenas um dia. Em muitos momentos, tive a sensação de estar diante de alguém que guardou ressentimentos por muito tempo e, de repente, decide expor tudo. Ainda que ele não seja o tipo de pessoa que eu gostaria de ouvir por longos períodos — pois algumas de suas motivações não são das mais louváveis —, dentro do contexto ficcional, acompanhar sua jornada foi recompensador, sobretudo pelos fluxos de pensamento.

Outro aspecto interessante é a própria estrutura dos parágrafos, compostos por frases longas que criam um efeito de fôlego no leitor. Em diversos momentos, tive a sensação de estar preso ao texto, à espera de um ponto final para respirar — muitas vezes só encontrado no meio da página ou até na seguinte. Isso faz com que A União das Coreias imponha seu próprio ritmo de leitura.

A ambientação também enriquece a narrativa. O livro se passa em Goiânia, e acompanhar um personagem transitando por lugares que conheço — seja por já ter estado lá ou por passar com frequência — trouxe familiaridade e conexão. Uma frase em especial ficou martelando em minha cabeça: “Goiânia não combina com literatura.” Além de provocar reflexões, essa afirmação carrega múltiplos significados dentro da obra.

Agora, sobre os pontos que me incomodaram: torci um pouco o nariz para a forma como Paulo Henrique lida com algumas situações, especialmente nos relacionamentos amorosos com Rebeca e Duda. Apesar de eu não ter dado tanta ênfase a isso aqui, trata-se de uma parte relevante da história e que reforça a ambiguidade do protagonista. Em certos momentos, o livro nos leva a questionar se ele é simplesmente um produto do meio ou se há algo mais profundo que orienta suas decisões questionáveis.

Para concluir esta recomendação, A União das Coreias, de Luiz Gustavo Medeiros, é uma leitura que provoca. Paulo Henrique é um protagonista intenso em sua forma de ver o mundo, e o livro aborda temas relevantes com profundidade. Gostei especialmente das contradições que o cercam e das soluções que encontra para algumas de suas questões.

A trama se passa em um único dia, o que dita um ritmo acelerado, mas também confere autenticidade ao que é proposto. Não espere respostas fáceis — esta é uma experiência com viés filosófico, madura, que apresenta uma narrativa envolvente, temas bem trabalhados e uma ambientação marcante.

★★★★
A união das Coreias
Autor: Luiz Gustavo Medeiros
Editora: Reformatório
Páginas: 152
Lançamento: 2024

Escrito por
Gabrihel Campos

Depois que me perdi entre páginas e histórias, não consegui mais largar os livros. Sou fã de Star Wars, Star Trek e Doctor Who — e se você curte uma boa leitura e universos cheios de aventura, já estamos no caminho certo. Sou Gabrihel, criador do Recomendo Ler, onde compartilho resenhas sinceras e dicas de livros que me marcaram. Não faço cerimônia: aqui todo gênero é bem-vindo, só não peço para gostar de spoilers, por favor.

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