Apesar de nunca ter figurado entre os autores revelação lançados pelas editoras brasileiras, Junji Ito sempre foi uma referência com seus mangás mundo afora. Sua popularidade e extensa obra fizeram com que algumas editoras embarcassem na missão de trazer em seus catálogos suas principais obras. Assim fez a Darkside Books, talvez uma das mais tímidas, com o lançamento de Fragmentos do Horror; a Devir, com os lançamentos de Uzumaki (2019) e Gyo (2021); e, mais recentemente, a Pipoca e Nanquim, com Tomie, Frankenstein e Outras Histórias de Horror e A Sala de Aula que Derreteu, ambos lançados em 2021.
Se antes era basicamente impossível encontrar um título do autor no Brasil, hoje o cenário é outro e mostra uma vida longa nos olhares atentos das editoras brasileiras e principalmente dos leitores. Junji Ito, enquanto criador, tem uma característica muito própria de empregar em suas histórias algo que, mesmo para o gênero, possa ser considerado muito óbvio. Ele soube e ainda sabe fazer uso da elevação das sensações incômodas enquanto o leitor se propõe a ler qualquer uma de suas obras. A Sala de Aula que Derreteu é um desses bons exemplos. O mangaká, numa de suas obras mais curtas, sugere essas sensações ao leitor e tudo funciona muito bem.

A Sala de Aula que Derreteu é de longe a melhor obra de Junji Ito. Ao ler o mangá, o leitor precisa ter em mente que, em sua concepção, com algumas narrativas limitadas mas que funcionam de forma eficiente, somos apresentados a uma das obras mais curtas e objetivas de Junji Ito. O mangá conta com três histórias que funcionam de forma independente, mas que no resultado final se complementam. Essa é sempre uma característica narrativa muito bem explorada pelo autor em todos os seus mangás e, como dito anteriormente, é eficiente no que se propõe.
Yuma e Chizumi são irmãos e juntos protagonizam momentos bem bizarros em A Sala de Aula que Derreteu. Enquanto Yuma se mostra um jovem com alguns complexos e sua necessidade de sempre pedir desculpas às pessoas, sua irmã Chizumi é retratada de forma grotesca por Junji Ito. Nas primeiras páginas do mangá, o leitor já é parte do show de horrores que se desenrola ao longo de 188 páginas. Mesmo contendo cenas fortes e explicações óbvias em alguns momentos, a obra consegue ser complexa e ao mesmo tempo fluida.

A trama de A Sala de Aula que Derreteu não é limitante. Junji Ito entrega uma das três histórias que compõem a edição, mas trata de deixar tudo muito bem conectado. Com isso, o mangá vai muito além de simplesmente uma história de terror, ainda que abuse dos principais clichês desse tipo de narrativa. É importante lembrar que os recursos clichês, em mangás, não devem ser vistos com maus olhos, desde que empregados de forma que contribua com o desenvolvimento da proposta da história. Nisso Junji Ito é um mestre, sem dúvidas.
Com três histórias relativamente curtas, Junji Ito explora a bizarrice de um jovem que vive se ajoelhando e pedindo desculpas às pessoas, enquanto sua irmã vive assombrando pessoas pelas ruas. Além do roteiro, que se destaca de acordo com o desenvolvimento, a arte do mangá é um capítulo à parte. Tudo isso graças ao traço muito característico das obras do mangaká e que talvez seja o principal elemento que hoje em dia diferencia as obras de Junji Ito. Seu traço é muito pessoal no que tange ao reconhecimento do leitor de sua obra, mas ao mesmo tempo causa certo incômodo de forma positiva.
Sem dúvida alguma, a obra de Junji Ito ainda será muito explorada pelas editoras brasileiras. Percorrer um caminho não tão óbvio por seus títulos menos conhecidos pelo grande público pode render aos leitores a possibilidade de confrontar a evolução do mangaká enquanto criador e não apenas apreciar seus títulos mais famosos, como Tomie, Uzumaki e Gyo. A Sala de Aula que Derreteu é uma excelente porta de entrada para as obras de Junji Ito, assim como para aqueles que desejam conhecer um pouco mais do gênero em que o mangaká é tão conhecido.
★★★★
A Sala de Aula que Derreteu
Roteiro: Junji Ito
Arte: Junji Ito
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Drik Sada
Páginas: 188
Lançamento: 2021
Publicação Original: 溶解教室 (2014), Akita Shoten
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