terça-feira , 19 maio 2026
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A Sala de Aula que Derreteu, de Junji Ito

Junji Ito e o terror inquietante em A Sala de Aula que Derreteu.

Apesar de nunca ter figurado entre os autores revelação lançados pelas editoras brasileiras, Junji Ito sempre foi uma referência com seus mangás mundo afora. Sua popularidade e extensa obra fizeram com que algumas editoras embarcassem na missão de trazer em seus catálogos suas principais obras. Assim fez a Darkside Books, talvez uma das mais tímidas, com o lançamento de Fragmentos do Horror; a Devir, com os lançamentos de Uzumaki (2019) e Gyo (2021); e, mais recentemente, a Pipoca e Nanquim, com Tomie, Frankenstein e Outras Histórias de Horror e A Sala de Aula que Derreteu, ambos lançados em 2021.

Se antes era basicamente impossível encontrar um título do autor no Brasil, hoje o cenário é outro e mostra uma vida longa nos olhares atentos das editoras brasileiras e principalmente dos leitores. Junji Ito, enquanto criador, tem uma característica muito própria de empregar em suas histórias algo que, mesmo para o gênero, possa ser considerado muito óbvio. Ele soube e ainda sabe fazer uso da elevação das sensações incômodas enquanto o leitor se propõe a ler qualquer uma de suas obras. A Sala de Aula que Derreteu é um desses bons exemplos. O mangaká, numa de suas obras mais curtas, sugere essas sensações ao leitor e tudo funciona muito bem.

A Sala de Aula que Derreteu é de longe a melhor obra de Junji Ito. Ao ler o mangá, o leitor precisa ter em mente que, em sua concepção, com algumas narrativas limitadas mas que funcionam de forma eficiente, somos apresentados a uma das obras mais curtas e objetivas de Junji Ito. O mangá conta com três histórias que funcionam de forma independente, mas que no resultado final se complementam. Essa é sempre uma característica narrativa muito bem explorada pelo autor em todos os seus mangás e, como dito anteriormente, é eficiente no que se propõe.

Yuma e Chizumi são irmãos e juntos protagonizam momentos bem bizarros em A Sala de Aula que Derreteu. Enquanto Yuma se mostra um jovem com alguns complexos e sua necessidade de sempre pedir desculpas às pessoas, sua irmã Chizumi é retratada de forma grotesca por Junji Ito. Nas primeiras páginas do mangá, o leitor já é parte do show de horrores que se desenrola ao longo de 188 páginas. Mesmo contendo cenas fortes e explicações óbvias em alguns momentos, a obra consegue ser complexa e ao mesmo tempo fluida.

A trama de A Sala de Aula que Derreteu não é limitante. Junji Ito entrega uma das três histórias que compõem a edição, mas trata de deixar tudo muito bem conectado. Com isso, o mangá vai muito além de simplesmente uma história de terror, ainda que abuse dos principais clichês desse tipo de narrativa. É importante lembrar que os recursos clichês, em mangás, não devem ser vistos com maus olhos, desde que empregados de forma que contribua com o desenvolvimento da proposta da história. Nisso Junji Ito é um mestre, sem dúvidas.

Com três histórias relativamente curtas, Junji Ito explora a bizarrice de um jovem que vive se ajoelhando e pedindo desculpas às pessoas, enquanto sua irmã vive assombrando pessoas pelas ruas. Além do roteiro, que se destaca de acordo com o desenvolvimento, a arte do mangá é um capítulo à parte. Tudo isso graças ao traço muito característico das obras do mangaká e que talvez seja o principal elemento que hoje em dia diferencia as obras de Junji Ito. Seu traço é muito pessoal no que tange ao reconhecimento do leitor de sua obra, mas ao mesmo tempo causa certo incômodo de forma positiva.

Sem dúvida alguma, a obra de Junji Ito ainda será muito explorada pelas editoras brasileiras. Percorrer um caminho não tão óbvio por seus títulos menos conhecidos pelo grande público pode render aos leitores a possibilidade de confrontar a evolução do mangaká enquanto criador e não apenas apreciar seus títulos mais famosos, como Tomie, Uzumaki e Gyo. A Sala de Aula que Derreteu é uma excelente porta de entrada para as obras de Junji Ito, assim como para aqueles que desejam conhecer um pouco mais do gênero em que o mangaká é tão conhecido.

★★★★
A Sala de Aula que Derreteu
Roteiro: Junji Ito
Arte: Junji Ito
Editora: Pipoca e Nanquim
Tradução: Drik Sada
Páginas: 188
Lançamento: 2021
Publicação Original: 溶解教室 (2014), Akita Shoten
Onde encontrar: Amazon | Editora

Escrito por
Gabrihel Campos

Depois que me perdi entre páginas e histórias, não consegui mais largar os livros.

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