Contextos históricos sempre geram discussões espinhosas na sociedade. Não se trata de uma discussão restrita aos livros teóricos, mas presente em todas as mídias que se propõem a transmitir alguma mensagem. Seja nos cinemas, na TV, em livros teóricos ou de ficção, quadrinhos e mangás, é muito importante que esses contextos reforcem uma trama que faça sentido, seja pelo levantar de uma bandeira ou até mesmo pelo simples fato de se estar explorando determinado assunto. Obviamente, alguns momentos da história trouxeram consigo sequelas, seja para quem os viveu de perto, para familiares ou até mesmo para a evolução de uma sociedade. Por isso, é importante que quadrinhos como A Herança do Coronel, com roteiro de Carlos Trillo e arte de Lucas Varela, se tornem tão relevantes.
A Herança do Coronel tem como principal objetivo mostrar ao leitor como momentos delicados da história de uma sociedade podem gerar uma sequência de traumas no futuro e como alguns caminhos podem se tornar problemáticos. Como tema de fundo, que dita as ações dos personagens, temos uma Argentina no auge dos anos 70, período marcado pela ditadura. Esquecendo o conceito estrito de ditadura, o quadrinho não se limita ao contexto histórico, e isso é, sem dúvida, um traço relevante do roteiro da publicação.

Os roteiros de Carlos Trillo, desenvolvidos em pouco mais de 100 páginas, apresentam ao leitor Elvio Guastavino, reflexo de uma sociedade e de uma educação familiar que se moldaram à medida que a ditadura se instaurava com mais força na Argentina. É importante lembrar que todo o contexto histórico em A Herança do Coronel contribui para o desenvolvimento de cada personagem, dando os tons necessários de realidade que o quadrinho exige. Tudo é feito com muita expertise, sem exageros, mesmo quando foge em alguns momentos do modelo convencional.
Elvio Guastavino é, sem dúvidas, o tipo de personagem que convence em muitos aspectos, mostrando-se uma vítima dos acontecimentos que o cercam desde a infância. Isso porque Elvio desenvolve uma fixação por bonecas na vida adulta, após presenciar diversas vezes seu pai, o renomado Coronel Aaron Guastavino, treinando técnicas de tortura em bonecas. Essa relação caótica familiar é contrabalanceada pelas aparições da mãe de Elvio, que posteriormente se revela um dos pontos-chave em acontecimentos que ditarão diversos desdobramentos, tanto para os personagens quanto para a trama do quadrinho.
O quadrinho desenvolve seu roteiro de forma linear, mas com muitos momentos de altos e baixos para todos os personagens. A fixação de Elvio por bonecas, quase como uma reverência ao trabalho de seu pai, é o que, no fim das contas, ocupa mais páginas de A Herança do Coronel. É certo dizer que a relação do protagonista com essa dependência psicológica do amor se constrói em meio aos traumas que lhe pertencem e também aos de outros personagens, como, por exemplo, uma personagem que retorna para se vingar de Aaron Guastavino após ter sofrido diversas torturas.

Como A Herança do Coronel é centrada na visão do protagonista, que narra sua vida a partir de seu próprio ponto de vista, o roteiro de Carlos Trillo insere personagens relevantes para entregar ao leitor uma verdade que o protagonista insiste em negar, vitimizando-se ao longo de algumas páginas. Essa virada de chave no roteiro estabelece uma nova conexão entre o desenvolvimento da trama e a perspectiva do leitor, uma vez que Elvio Guastavino deixa de ser visto apenas como fruto de seu âmbito familiar, revelando que, no fim das contas, essa não era a grande verdade.
Elogiar o roteiro de Carlos Trillo em A Herança do Coronel é necessário, mas é igualmente importante lembrar que toda a jornada de Elvio Guastavino conta com um elemento imprescindível: a arte de Lucas Varela. Apesar de conter muitos pontos positivos em seu roteiro, o resultado final entre arte e narrativa transforma o quadrinho em quase uma aula de história sobre os reflexos da ditadura na Argentina — algo que não difere muito do que aconteceu ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Ao final, é difícil não se sensibilizar com a mensagem que o quadrinho busca transmitir ao leitor. De fato, é uma leitura obrigatória.
★★★★★
A Herança do Coronel
Roteiro: Carlos Trillo
Arte: Lucas Varela
Editora: Comix Zone
Páginas: 104
Lançamento: 2022
Publicação Original: El Síndrome Guastavino (2007-2008), Revista Fierro
Onde encontrar: Amazon | Editora
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